Faça Alguém Gozar!
Capítulo 04: O que devo falar?
É ela, com certeza é ela! – Exclamo mentalmente. É a garota que vi antes na entrada da escola. E, caramba, ela é realmente muito linda! Aqueles cabelos que parecem flutuar no ar, seu rostinho de mimosa e seu ar sereno formam uma figura maravilhosamente gostosa de contemplar.
Meus olhos estão cravados nela e se recusam a piscar. Desço minha visão pelo seu corpo, acompanho a blusa preta até chegar na calça desbotada da mesma cor, quando chego em seus pés, encontro umas botas lindas, também com a cor escura. Pelo tamanho delas, seus pés são pequenos. Ah, como eu adoraria vê-los!
Perco totalmente a noção do tempo. Que se foda o tempo! Por mim, que pare neste exato momento para todo o sempre. Fico completamente parado observando aquela obra divina sentada de maneira tranquila do outro lado da sala, apenas essa experiência já me faz sentir que minha vida valeu a pena.
Olha só ela, aqueles pés, aquelas pernas, aquelas coxas, tudo do jeitinho que encanta. Aquela cintura e aqueles seios, minha nossa! Aquele cabelo, aqueles ombros, aquele pescoço que imagino o quão cheiroso e macio deve ser. E aquela boca, caramba, que boca! Que belo nariz e que lindos olhos!
Olhos?
Num susto daqueles, noto que nossos olhares estão se cruzando. Quase que de imediato, abaixei a minha cabeça na maior rapidez possível. Droga! Ela percebeu? Claro que ela percebeu, droga! Mas talvez não. Ou, talvez sim. Que merda! Ela percebeu!
Que merda!
Que gata!
Não dar, não consigo levantar a cabeça para verificar se ela ainda está olhando. Mas se eu levantar a cabeça, posso descobrir se ela percebeu ou não. Talvez tenha sido apenas coincidência. Que merda, ela percebeu!
Meu dilema começa a me corromper, até que a professora finalmente apareceu. Ela é jovem, acho que não chega a ter mais de vinte e cinco anos; é uma gata. Galega, olhos claros, loira de farmácia e deve fazer academia, pois tem um rabão escoltado por duas coxas potentes. Com toda a certeza irei gravar na mente e descontar no banheiro quando chegar em casa.
A aula começa.
Como é o costume no primeiro dia de aula, a professora propôs as apresentações. E começou com a nerd que senta na frente, na fila do meio. Eu já havia percebido que os nerds sentam na frente, mas ‘o’ ou ‘a’ ‘ultranerd’ é quem, além de sentar na frente, senta na fila do meio.
Só prestei atenção no nome, se chama Lívia. O resto não fiz questão de atentar. Mas até que ela é razoável. Cabelos negros cacheados e um corpo desenvolvido para a idade, o problema é que ela usa roupas folgadonas demais e dispensa um toque de vaidade, como um pó no rosto; sem isso, ela fica com uma face abatida, sem cuidados.
Depois de algumas outras pessoas se apresentarem, as atenções voltaram para mim. É a minha vez.
Levantei-me.
— Meu nome é Charles, tenho dezesseis anos, eu estudava na Escola de Ensino Fundamental Norte. E é só isso mermo. — Sento-me.
Foi só o que consegui falar, mas por eu ter usado propositalmente o “r” no “mesmo”, arranquei alguns risos da galera. Até mesmo ela, a dama de preto, sorriu.
Ganhei o dia!
Fiquei ansioso aguardando a vez dela que parecia não chegar. Quero saber seu nome, sua idade, e qualquer outra informação. Quero muito saber quem é ela. Apesar de demorar, o momento finalmente chegou. A linda garota fica de pé.
Ouvi sua voz como se fosse um anjo tocando flauta. Anestesiado, pude ainda captar que seu nome é Luara, no entanto, ela tem dezessete anos. E assim que ela falou a idade, a frustração tomou conta de mim de tal forma que não consegui ouvir o resto de sua apresentação. Pois o meu irmão uma vez me disse que garotas só querem garotos mais velhos.
Depois das apresentações, a aula transcorre. Chega ao ponto no qual a professora começa a escrever no quadro; e nós, nos cadernos — e tudo fica bem silencioso. Hora e outra dou uma espiada na Luara e vejo como ela prende a mecha dos seus cabelos atrás da orelha esquerda todas as vezes que ela escapa. Ainda sentindo-me frustrado.
Mas, mesmo ciente da minha condição de mais novo, o tempo que fiquei olhando-a me deu coragem para ignorar esse detalhe. Decidido a arriscar, passo as aulas seguintes e todo o intervalo pensando em uma estratégia para chegar nela.
Devo chegar no romantismo ou no jeito de quem não quer nada?! Chego com uma voz confiante ao estilo Antônio Bandeira, ou menos? De qualquer forma, só há mais uma aula e devo falar com ela na hora da saída.
Mas o que devo falar?!
A hora se aproxima.
Começo a ficar nervoso. Minhas pernas, de modo involuntário, ficam agitadas e meu estômago decide borbulhar provocando um friozinho dramático na minha barriga. Como se não bastasse, minha respiração fica mais pesada a cada segundo que o relógio avança.
Até que o momento chega.
O sinal toca.
Hora da saída!
É agora, porra!
Vamos, pernas, funcionem!
Luara, junto com todo o resto da sala, se retira. Eu, por outro lado, fico travado na minha carteira. Mas tenho total consciência de que devo me mover, que devo ir atrás dela. Só assim poderei ter alguma chance. Movam-se, pernas! Vamos!
Com um esforço, consigo finalmente me levantar. Saio correndo da sala e atravesso o enorme pátio o mais rápido possível. Lá, um pouco distante, quase na saída da escola, enxergo a Luara. Apresso-me mais ainda, até que finalmente a alcanço e toco em seu ombro direito. Na mesma hora, ela para e se vira ficando de frente para mim.
— Pois não? — Ela indaga.
Puta que pariu, perto demais! Vou morrer, caralho! E agora, o que faço? Minhas pernas, não sinto minhas pernas. Eu vou cair, devo segurar nela? Estou morrendo? Por que o ar está pesado? Não consigo encher meus pulmões. Não estou sabendo mais como se faz para respirar. Vou morrer! Meu deus, que rostinho lindo. Quero gozar!
Droga, fale alguma coisa, Charles!
— Oi? — Ela chama a minha atenção. — Quer algo?
Vamos, cara, diga algo.
Vamos, boca, vamos!
Faço o maior dos esforços para retomar a voz.
Respiro fundo.
— Você gostaria de transar comigo?