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Faça Alguém Gozar!

FAG – Capítulo 37

Faça Alguém Gozar!

Capítulo 37: Nuvens Negras

 

Durante toda a extensão da noite, fui cativo de diversos sonhos. Dentre eles, um horrendo e preocupante pesadelo.

Eu estava acompanhado de minha bela namorada, Larissa. Juntos, estávamos a passear por lindos e floridos jardins. O cenário natural conspirava ao nosso favor.

A natureza, com todos os seus componentes, estava em total harmonia para com aquele doce e mágico momento. Tudo era facilmente comparado aos mais belos momentos descritos em contos românticos.

Contudo, como se fosse uma troca proposital feita em uma cena teatral, o cenário mudou. O sol foi enganado e coberto por nuvens negras, os lindos pássaros — que outrora catavam alegremente — foram substituídos por corvos, e as belas flores perderam suas pétalas.

O oposto do belo se apresentou e trouxe consigo a mais tenebrosa das tempestades, com clarões dos relâmpagos seguidos de trovoadas apavorantes. Tudo o que era agradável foi substituído pelo indesejado, mas, ao menos, eu ainda tinha a Larissa.

Olhei-a e vi seus cabelos molhados caírem sobre os ombros e face. A sua blusa estava colada ao corpo e a água a tornara quase que transparente. Com a mão esquerda, descobri seu rosto por trás dos úmidos fios de cabelo e assisti o desmanchar de sua maquiagem.

Os trovões a deixavam apavorada. Olhei para todos os lados e não havia sequer um único abrigo que poderíamos utilizar. Então, para, entre outras coisas, aliviar o frio, nos abraçamos.

A chuva aumentava cada vez mais e mandava sinais de que não arredaria tão cedo. Foi então que decidi ignorar as condições climáticas. Segurei — com as duas mãos — o rosto da minha companhia e a beijei. Foi, literalmente, o beijo mais molhado de todos.

Curiosamente, durante o beijo, a chuva deu trégua. Nenhuma gota d’água ousava tocar a terra, mas as nuvens negras ainda estavam em formação, mantendo o sol em cárcere. Notando o que aconteceu, ingenuamente atribuí o cessar da chuva ao beijo e acreditei que se continuássemos a nos beijar, a chuva não voltaria.

Nos beijamos por vários minutos até que pude sentir algo úmido escorrer da boca dela para a minha. No princípio, cogitei ser saliva, mas o líquido tinha um gosto estranho e uma textura mais grossa do que a de saliva. Recuei minha boca e cuspi fora o acumulado. Olhei para o chão e fiquei chocado, pois era sangue.

Voltei a olhar para a Larissa e a vi sagrar pela boca. Olhei o seu corpo e havia um ferimento em seu peito. Observei com mais cuidado e vi que existiam mais dois ferimentos, ambos na região do abdômen. Larissa caiu! A chuva retornou feroz e eu acordei completamente assustado, suado e respirando com força e dificuldade.

Quando me dei conta de que se tratava apenas de um pesadelo, aliviei-me.

Após me levantar da cama, fui logo para o banheiro tratar de esfriar a cabeça e o corpo. Depois do banho, retornei para o quarto. Não tive a intenção nem a atitude de vestir algo e fiquei apenas enrolado na toalha.

Fui até a janela, apoiei-me no batente e fiquei a observar.

Em minha observação, bati os olhos em uma figura conhecida. Avistei Marcos do outro lado da rua olhando para mim.

O seu olhar está fixo em mim e deseja-me o mal.

Um ônibus, ao passar pela rua, cortou a nossa troca de olhares. Quando voltei a ter contato visual, percebi que me confundi. O garoto que eu olhava não era o Marcos. É apenas um sujeito da vizinhança que faz um passeio matinal com seu cachorrinho. E ele nem se quer me olhava.

Ainda estava concentrado na janela quando Geórgia adentrou meu quarto com a intenção de continuar com a bronca sobre ontem.

— Olha aqui, Charles. Você não pode ficar me…

Eu olhei para ela sem expressar simpatia no rosto e sem nenhuma consideração ou paciência para escutar o que ela tinha a falar. Então ela não completou a fala.

— Hoje não! — Falei friamente.

Geórgia temeu! Senti que ela se preocupou e até pensou em me perguntar o que estava havendo, mas ela achou melhor se retirar.

Minutos depois, desci para tomar o café da manhã.

Cumprimentei a família como o costume. Fiz minha refeição, avisei que faria uma pequena viagem com a família da Larissa e me retirei para o quarto. Cheguei, fechei a porta e me joguei na cama na esperança de conseguir desfrutar de um sono sem sonhos.

Larissa e família virão me pegar por volta das 14h, sendo assim, tenho a manhã toda para dormir.

Às 12h.

O toque do meu celular teve a ousadia de me acordar, é a Larissa me ligando.

— Alô? Charl?

— Oi! Sou eu!

— Vamos passar aí daqui a pouco, você vai mesmo, né?

— Sim, irei!

— Ah! Que bom! — Ela fala aparentemente alegre com a minha presença na recepção da irmã.

— Por que faz tanta questão que eu vá? Eu poderia conhecer sua irmã quando ela já estivesse na sua casa — resolvi indagar.

— Não, não. Eu quero que ela te veja logo. Que me veja com você — ela respondeu com uma certa insegurança na voz.

Parece que existe uma treta entre elas e eu servirei como um troféu que a Larissa deseja usar para impressionar a irmã mais velha. Isso me lembra a formar que sempre me comportei perante o Rodrigo. Sempre me esforcei para superá-lo e ele sempre tratou de me lembrar que estou abaixo dele, apesar do sujeito aparentemente me amar. Devido a essa possível treta entre elas, fica claro o porquê da Larissa nem sequer ter se dado ao trabalho de falar sobre a irmã antes.

— Ok! Então eu irei! — Confirmei.

—Certo! Estaremos passando na sua casa daqui a pouco. Até!

— Até!

O almoço já deve ter acontecido. Estranho mamãe não ter me chamado.

Desço e vou até a cozinha e encontro minha mãe.

— Mãe, por que a senhora não me acordou para o almoço? — Pergunto enquanto sento-me em uma das cadeiras que ficam ao redor da mesa.

— Hoje cedo você parecia tão aflito, logo imaginei que não teve uma boa noite de sono. Decidi deixar você descansar, mas sua comida está aqui! Lave as mãos enquanto eu a coloco na mesa! — Ela respondeu enquanto mexia nas panelas sobre o fogão.

Lavei minhas mãos e almocei.                       

Fui para o quarto, peguei minha toalha e voltei a usar o banheiro. Depois da ducha, tornei a me refugiar no meu recanto.

O relógio já marca próximo do horário combinado. Já fiz meus preparativos e fico no aguardo da minha carruagem que, por sua vez, não demorou muito a chegar. Desço e encontro mamãe na porta conversando com Larissa, dou um cheiro na bela mulher do meu pai e parto na companhia da minha. Entro no veículo e cumprimento o Sr.Rubens, Sra. Mônica e o André. Acomodo-me no banco traseiro junto com os dois irmãos e partimos.

Durante o trajeto, André não calou a boca nem por um momento. Ficamos sussurrando sobre mulheres e relacionamentos. Ele realmente está empolgado com seu namoro com Lívia. Larissa, por sua vez, não se incomodou com a minha falta de atenção com ela. Na verdade, ela estava ocupada em seus próprios pensamentos.

Ao chegarmos no aeroporto, tratamos logo de nos deslocar para o terminal de desembarque.

— Ali! Olha ali ela! — Disse a Sra. Mônica apontando com o dedo e, em seguida, acenando com as mãos.

Uma moça viu os acenos e começou a se dirigir em nossa direção.

Quando ela chegou mais perto, fui capaz de enxergar os detalhes. É uma jovem garota, com a pele de quem não pega sol, cabelo castanho, liso e longo (até o meio das costas, acho), é da minha altura ou só um pouquinho mais baixa (é mais alta que a Larissa e Mônica), tem um corpo maior e mais desenvolvido do que Larissa (muito gostosa), tem um rostinho limpo e doce. Está trajando uma jaqueta com uma blusa preta por baixo, calça jeans bem ajustada ao corpo e botas da hora. Traz consigo algumas pequenas malas de mão. Creio que as maiores estão aguardando o desembarque.

Não deixo de fazer a comparação, Verônica é tão bonita quanto a irmã. Leva algumas vantagens por já ter o corpo desenvolvido, mas é questão de tempo para Larissa ser igualmente ou até mais gostosa. Ainda mais com o cuidado que ela tem com o corpo, mas, no momento, a irmã mais velha é mais tesuda.

Verônica cumprimenta os pais e os irmãos.

— Este aqui é o Charles, meu namorado — sou apresentado.

— Prazer! — Digo estendendo a mão.

Verônica ignora a minha mão e me abraça.

— O prazer é meu! — Ela me solta e abre um sorriso.

— Vamos? — O Sr. Rubens propôs.

André e eu pegamos as demais malas e colocamos todas no porta-malas do carro. Todos embarcamos e começamos a viagem de volta para a nossa cidade. Sorte a nossa que o carro é de um bom tamanho para poder nos acomodar sem muito aperto.

Por causa do longo voo, Verônica estava bem cansada e dormiu no ombro do irmão durante as horas de estrada.

— Charl? — Larissa sussurrou.

— O quê? — Sussurrei de volta.

— Tome cuidado com ela — fui estranhamente advertido.

— Como assim tomar cuidado? — Solicitei uma explicação.

— Apenas tome cuidado, ok? — Ela disse sem mais detalhes.

— Ok!

Ela me deu um cheiro na bochecha e adormeceu no meu ombro.

Eu já tinha algumas suspeitas, mas agora ficou claro que existe uma treta entre essas irmãs.

Por algum motivo, Larissa não confia na irmã e acredita que ela seja capaz de prejudicá-la de alguma forma. Porém, olhando para a Verônica dormindo, não consigo imaginar que ela seja uma pessoa capaz de prejudicar alguém e muito menos a própria irmã mais nova.

Chegamos na casa da família Boaventura. André e eu ficamos encarregados de levar as malas da Verônica até o quarto de hóspede, o qual foi especialmente restaurado para recebê-la. O restante do pessoal se reuniu na sala e começaram a colocar o papo em dia.

— Hei, André? — Aproveitei que estamos a sós no quarto da recém-chegada para conseguir algumas informações.

— O que foi? — Ele correspondeu.

— Existe algo entre suas irmãs? — Perguntei colocando umas das malas ao lado da cama.

— Como assim? — Ele exigia que eu fosse mais claro enquanto arrastava outra das malas para um canto.

— Não sei. Tipo, Larissa parece ter algumas desconfianças, receios, sei lá.

— Isso não é normal? Afinal, elas são irmãs — ele disse vagamente.

Percebi que não vou conseguir nada do André ou, provavelmente, nem ele sabe o que se sucede entre as lindas moças. Abandonamos as malas no quarto e retornamos para o resto do pessoal.

Chegamos na sala.

— Charl?! — Larissa me chama dando tapinhas no sofá acenando para eu me sentar ao seu lado.

Fui, desconfiadamente, até ela e me coloquei ao seu lado. De imediato, ela segurou minha mão bem mais firme do que o costume. Fiquei sem jeito, afinal, seus pais e irmãos estão presentes, mas parecem não se incomodar com o nosso apego.

— Então, Charles? — Verônica rompeu o silêncio que se sucedera desde minha entrada na roda.

— Oi! — Reagi.

— Parece que minha irmãzinha finalmente deu sorte — ela disse com um sorrisinho mais sarcástico do que os do meu irmão quando queria me sacanear.

— Não entendi! — Falei.

Ela riu e os outros riram mesmo sem entender. A Larissa, claro, não sorriu.

— Mamãe me disse que você é um garoto espetacular. Conseguiu domar essas duas ferinhas — ela se referiu aos irmãos.

Larissa apertou ainda mais forte a minha mão. Ela está com raiva, eu sei quando minha garota fica zangada. Até mesmo André não gostou do modo como Verônica se referiu a eles.

— Eu não fiz nada, eu que tenho sorte de ter André como amigo e de poder namorar uma garota sem igual que é a Larissa — respondi com confiança.

Verônica sorriu!

— Vou preparar algo para o jantar. Hoje é folga da empregada, então devo assumir a cozinha — disse a Sra. Mônica enquanto se retirava da sala.

— Tenho que ir, tenho plantão no hospital hoje — Sr. Rubens também partiu.

André recebeu um telefonema, provavelmente da Lívia, e também se ausentou. Ficamos os três na sala: eu e as duas irmãs.

— Charles, eu até entendo o porquê de minha maninha te escolher como namorado. Até eu gostaria de tomar posse de um garoto atraente como você — Verônica pronunciou sem medir nenhuma das palavras.

— Infelizmente, para você, mana, ele já tem dona! — Larissa entrou na conversa.

— Mesmo? — Verônica insistiu olhando para mim e passando o dedo indicador da mão esquerda no lábio inferior.

Por acaso ela está me paquerando?

— Que tal isso? — Larissa disse e me beijou na frente da irmã.

Verônica sorriu.

— Calma, irmã, não me leve tão a sério! Estou apenas brincando um pouco com você — Verônica declarou.

(Brinque mais) — pensei.

Larissa fechou a cara.

— Ainda tem raiva de mim por causa do Sebastian?

— Sebastian? Que Sebastian? — Entrei no jogo, curioso todo.

— Ah! Então ela não lhe contou, Charles?

— Contou o quê? — Indaguei.

— Cala a boca, Verônica! Por que você não cuida da sua vida? — Larissa se alterou.

— Que Sebastian, Larissa? — Perguntei, mas ela ficou em silêncio.

— O grande amor da vida dela! — Verônica respondeu.

Fiquei em silêncio.

— Ela tem raiva de mim por causa que ele me escolheu ao invés dela — Verônica continuou.

— Você o seduziu, vadia! — Larissa replicou.

— Eu tenho culpa por ser mais desejada pelos homens do que você? — A irmã mais velha cutucou.

Larissa se retirou as presas da sala e foi para o jardim da frente.

— Acho que você deve ir atrás dela, garoto. Ela é sensível e chorona, vá lá oferecer ombro amigo. Estou cansada, então não tenho tempo para você hoje. Vou deixá-la ter você no momento.

Quem essa merda pensa que é?

Levantei-me e fui atrás da minha namorada.

— Larissa? — A encontrei sentada no gramado e me coloquei ao seu lado.

Ela olhou para mim e caiu no meu colo a chorar.

— Quem é Sebastian? — Indaguei.

— Foi um namoradinho que tive — ela respondeu.

— Quando?

— Há uns dois anos.

— Qual a idade dele?

— Agora ele deve ter 19 ou 20.

— Cadê ele?

— Eu não sei e não importa — ela respondeu me abraçando forte.

Passado é passado. Conformei-me com as respostas.

Já é tarde da noite. Devo voltar para a minha casa.

— Eu te amo, Charl! — Larissa declarou enquanto escondia sua face no meu peito.

Acariciei seu cabelo e dei um beijo em sua cabeça.

Por instinto, comecei a olhar ao redor, pois senti-me observado.

Olhei para todos os cantos e no campo de visão da diagonal direita estava alguém, após o gradeado que separa o terreno da casa do mundo lá fora, olhando para nós.

Como estava escuro, tive dificuldade de identificar o sujeito.

Mas era questão de tempo para algum veículo passar e me fornecer luz.

Minhas expectativas foram atendidas e um caminhão, que passara pela rua, iluminou — com seus faróis — a pessoa ali parada e logo o reconheci.

Senti minhas mãos suarem e o ar pesar nos pulmões. O coração se agitou e todo o meu corpo ficou em alerta. Abracei Larissa bem forte com a intenção de lhe garantir segurança. Olhei novamente para o indivíduo e ele ainda está no mesmo local olhando para nós.

O que faz aqui, Marcos? — Pensei em silêncio.

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