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Faça Alguém Gozar!

FAG – Capítulo 39

Faça Alguém Gozar!

Capítulo 39: Poderoso, frágil e delicado.

— Imprevistos acontecem, e são eles que adoçam as nossas vidas. Os mais cautelosos dos planos estão sujeitos a sofrerem alterações no momento da ação. A teoria, por muitas vezes, se distancia da prática. Certo que certas práticas são perfeitamente fiéis às suas teorias. Se come pela boca, por exemplo, cagarás pelo ânus. Caso coma pelo ânus, ainda assim, cagarás pelo ânus. O ânus, em situações naturais, vai sempre cagar, você queira ou não.

— Espere ai, Charles! Aonde você quer chegar com essa sua fala? — Indagou a professora de Português.

Estou no meio de uma apresentação de seminário. Obrigaram-me a trabalhar um tema livre como forma de desenvolver habilidades discursivas orais. Todos da turma são testados sem o direito de recusar, então, como forma de protesto — e aproveitando que o tema é livre — decidi falar sobre o ânus.

— Aonde quero chegar? — Repliquei a professora colocando minhas mãos nos bolsos da calça e aparentando uma imagem entediada e mal-humorada.

— Sim, tudo bem que o tema é livre, mas havia necessidade de você falar justamente disso? Não achas que és um assunto delicado demais? — Ela criticou com o velho tom de autoridade máxima e erguendo, com frequência, os óculos que vivem a escorregar pelo nariz.

O meu tédio já está no limite. Odeio esses tipos de avaliações e todos sabem disso.

Porra, eu sei falar, caralho! Mas posso optar por uma prova escrita? Não, claro que não. Devo vir aqui, falar e suportar críticas de uma gostosinha de uns vinte e tantos anos que, apesar de ser uma galega atraente, é chata pra burro.

— Professora, a senhora não considera a importância que o ânus tem? — Indago só para sacanear mesmo.

A turma rir em massa, mas contém o sorriso quando a galeguinha joga sua fria encarada sobre todos.

— Charles, você é um ótimo aluno. Suas notas são excelentes, mas várias de suas atitudes são irregulares.

— Irregulares? — A interrompo.

— Sim, irregulares! — Ela afirma e se levanta.

—Veja, por exemplo, a Lívia, que considerou falar sobre a importância da água ou o André, que trouxe para nós as contribuições das algas marinhas para o nosso ecossistema. A Larissa, que, por sua vez, explanou muito bem sobre a relevância que possuem as formigas.

Sinto que ela vai continuar com esse “show comparativo” até me fazer entender que minha “colaboração informativa” é a mais inútil da turma.

— Ok! Entendi! — Digo revirando os olhos e coçando meu cacete com minha mão esquerda que está por dentro do bolso da calça. Os garotos fazem isso com frequência, suspeite quando ver algum com as mãos dentro dos bolsos. Sabe aquele seu amigo que não tira as mãos de lá? Pois é!

— Então você concorda que seu assunto é inapropriado para o momento? — Ela insistiu.

Olho para a turma, alguns estão segurando o riso, outros estão aflitos e a Larissa está com vontade de me bater. Eu odeio esse tipo de atividade!

— Professora, eu até entendo o seu repúdio — reinicio minha fala retirando minhas mãos dos bolsos.

— Entende mesmo? — Ela suspeita.

— Claro, eu entendo. A senhora deve ser do tipo que ignora aqueles que fazem o trabalho sujo — continuo alterando minha voz para um tom mais discursivo e gesticulando como um político.

— Não, não. Eu não faço isso, não ignoro aqueles que fazem o trabalho sujo, não tenho descriminação — ela fala.

Eu não sei bem que tipo de pessoas veio à mente dela, mas vou continuar.

— Pois bem, se isso é verdade, então não me proíba de ressaltar a importância do ânus para nossas vidas. Aquele cuja existência é primordial para esvaziar a merda que produzimos diariamente. Imagine o ânus como um profissional que cuida do equilíbrio do nosso corpo.

— Já chega, Charles! — Ela grita me interrompendo. Acho que agora ela irá pensar muitas vezes antes de me colocar para fazer esse tipo de apresentação.

Estou sacaneando a professora, mas gosto do ânus. Ele é um bom amigo. Pelo menos uma vez por dia ficamos a sós, em um momento muito íntimo, trabalhando juntos para vencer um inimigo mortal e fedorento. Com uma dose de esforço, nos livramos daquela massa comprimida. Como retribuição, o ânus ganha o banho relaxante que merece.

— Por quê? — Finjo-me surpreso com a ordem para encerrar minha fala. Arregalo até mesmo os olhos.

— Você está deixando a turma constrangida! — Ela argumentou.

— Constrangida? Ora, bolas! Todo mundo tem ânus e todo mundo caga. Eu, a senhora, eles, a diretora, os pais deles. Todos! Certo que uns não fazem cagadas apenas pelo ânus, metaforicamente falando. Então, qual o receio? Por que o preconceito? Por que essa “Ânusfobia”?

— Certo, Charles! Certo! Vou considerar o seu desempenho e não o assunto trabalhado, mas, por favor, chega! — A professora implora.

— Turma, obrigado pela sua honrada e valorosa atenção! — Encerro minha apresentação ovacionado com gritos, assovios e palmas. Jovens adoram uma bagaceira.

Sento-me no meu devido e amado lugar e recebo um aperto de mão do André e um beliscão da Larissa.

Instantes depois, a aula de Português encerra.

Lívia e André saem juntos. Um casal completamente apaixonado se formara. Chega a ser lindo.

Fico na sala com minha adorável namorada.

— Você deve levar as coisas a sério, Charl! — Ela me adverte.

— Para que sempre levar as coisas a sério se posso levá-las de várias outras maneiras? — Respondo com um sorriso sarcástico.

— Não me venha com filosofias — ela fala olhando para frente e fazendo o tradicional e fofo biquinho de chateada.

Aproximo minha carteira da dela, coloco minha mão direita em sua cabeça e faço carinhos delicados em seu cabelo. Um gostoso cafuné!

— Por que não consigo ficar zangada com você, Charl? — Ela se vira e olha em meus olhos.

— Porque sou fofo! — Dou um sorrisinho. Ela rir com mais entusiasmo do que eu, mas mata o sorriso e volta a ficar com a face séria.

Então os olhos dela capturam os meus.

Estou e sempre estive consciente de que tenho um compromisso com ela, mas esse compromisso sempre foi, para mim, uma relação carnal e de aparência. Pelo menos até agora.

Ela é linda e isso é ou era o suficiente para querê-la ao meu lado, mas, desde o Luau da minha família, algo dentro de mim cresce insanamente. E, agora, olhando-a nos olhos, sou puxado para o seu íntimo.

O mundo exterior se torna indiferente e inútil. Tudo o que desejo é habitar nesse olhar por mais tempo.

Meu peito sofre violentos golpes, o coração é o agressor. Ele está querendo sair, querendo entrar em contato com o coração que bombeia o sangue da garota que chamo de namorada. O meu coração a quer e sofrerá se não a tiver.

No mundo aparte no qual vagamos por obra da nossa poderosa troca de olhares, conversamos sem o uso das palavras. Os nossos sentimentos se reúnem para travarem o mais importante dos diálogos. A Razão não foi convidada para a reunião. A Paixão foi a primeira a chegar. O Amor ligou e disse que vai se atrasar um pouco, mas irá chegar.

Enquanto a reunião dos sentimentos se sucede, nossos corpos aguardam conversando entre si. Nossas mãos se unem e nossos dedos se entrelaçam. Nossos lábios aguardam, ansiosamente, o veredito. Queremos ser acusados de paixão e punidos com horas de beijos com poucas pausas.

Toda essa tensão me desnorteia.

Sinto medo do que sinto. Sinto medo de deixar de sentir o que sinto. Tudo se resume ao medo de ter e não ter. O medo é o Amor. O amor é o Medo. Por isso tenho medo de amar e o medo de não ser amado.

O amor, para mim, é um assombroso vale desconhecido, que passa a maior parte do dia sobre um nevoeiro intenso que ofusca os olhos. É algo que nunca acreditei, mas que pode existir sem minha crença.

A reunião ainda não havia terminado, mas, por um ato de rebeldia, nossos lábios se encontraram mesmo sem o veredito. Foi o nosso primeiro beijo depois de muitos outros. O primeiro beijo que não foi como os outros. É como comer a mesma comida, só que feita de uma maneira especial. É como o feijão de domingo que teima em ser mais delicioso do que os servidos nos demais dias da semana.

Nossos lábios tornaram a ficar distantes. Os corações muito protestaram.

— O que foi isso? — Ela perguntou assustada.

— Eu não sei! — Estou igualmente assustado.

— Por que me sinto assim, com vontade de chorar apenas com a ideia de ficar longe de você? — Ela continuou a falar enquanto apertava forte minhas mãos.

— Eu não sei. — Minhas pernas ficaram trêmulas.

Larissa começou a chorar levemente.

Olhei para ela, recolhi seu corpo em meu abraço e sufoquei o som do seu choro em meu peito.

Um pressentimento perturbador me veio à cabeça. Algo não muito bom poderia acontecer e esse choro se tornaria mais grave e impossível de sufocar ou conter. Algo poderoso, porém, frágil e delicado me foi confiado. Não tenho experiência para lidar com esse sentimento, mas hei de fazer o melhor.

Ergui a cabeça da Larissa e enxuguei suas lágrimas.

— Não chore! — A confortei.

— Não é minha culpa, apenas me sinto obrigada a chorar!

Olhei para o lado e os alunos já retornavam do intervalo.

Larissa enxugou o restante de suas lágrimas caídas. Afastei minha carteira de volta para o lugar correto.

Todos os alunos retornaram do intervalo e as aulas recomeçaram. Hora e outra eu olhava de lado e lá estava ela com seu sorriso restaurado no rosto.

Em uma dessas minhas olhadas fui agraciado com os seus olhos já me olhando. Cumprimentei-a com um sorriso e ela falou, sem sons, apenas pelo movimento dos lábios, três palavras que consegui facilmente compreender:

“Eu Te Amo!”

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